domingo, 17 de agosto de 2008

Sobre Segurança Social



Achei que hoje já tinha postado o suficiente... até encontrar este video no YouTube!
E como nós estamos a passar por uma situação semelhante, espero que isto proporcione, no mínimo, uma séria reflexão.
Também nós nos dirigimos à Segurança Social para pedir as Ajudas Técnicas que o Principezinho precisa neste momento e a resposta foi exactamente a mesma: já não há verbas! Nem sequer ficaram lá com as prescrições médicas do material porque "não valia a pena"... Não valia a pena sequer marcar uma reunião com a Assistente Social. Se quisesse podia escrever à Coordenadora dos Serviços Sociais...
Confiram o resultado desta reportagem aqui!!!
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Na estante do Cucu (2)


Voltamos à estante com mais um livro delicioso que se enquadra na realidade infantil na perfeição...
À parte de uma ou duas palavras que acho demasiado complicadas para a faixa etária do livro.

- A Mara é orelhuda!
- Mãe, tu achas que eu sou orelhuda?
- Não, filha. Tens é orelhas de borboleta.
- E como são as orelhas de borboleta?
- São orelhas que revoluteiam na cabeça e pintam as coisas feias de mil cores.

Ter as orelhas grandes, o cabelo rebelde, ser alto ou baixo, magro ou rechonchudo... até a mais insignificante característica pode ser motivo de troça entre as crianças.


Porque se devem valorizar as características que nos diferenciam dos outros para nos distinguirem como seres especiais e únicos.

Título: Orelhas de Borboleta
Autor: Luisa Aguilar
Ilustração: André Neves
Colecção: livros para sonhar

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sábado, 16 de agosto de 2008

I´m going my own way!



«Não ande à minha frente

Eu posso não o seguir

Não ande atrás de mim

Eu posso não saber onde ir

Ande ao meu lado e seja

meu Amigo»

Albert Murphy

Passar o tempo


Nestes dias de ócio, em que toda a gente está de férias (menos nós!) vamos passando o tempo a "namorar", essencialmente...

Confesso que a "preguicite aguda" também se vai apoderando de mim com mais frequência do que eu gostaria, por isso não temos horários a cumprir... pelo menos até chegar Setembro e com ele as consultas, as sessões na UTAAC, a Terapia Ocupacional e a Educadora da Equipa de Intervenção Precoce.

Quem dera que, com o início do novo ano lectivo, surgisse a oportunidade do Principezinho ter Terapia da Fala, voltasse ao infantário e à Hidrocinesiaterapia. Mas isto só depende do estado de saúde dele mesmo e (claro!) da autorização da pneumonologista.

Entretanto, além das leituras, dos jogos, do standing-frame e do andarilho, o Principezinho readquiriu o gosto pelas brincadeiras no chão - sozinho!

De dia para dia consegue rebolar e "meio-arrastar-se" para mais longe. Tudo isto graças às bolas que espalho pelo chão da sala e que ele tenta agarrar. Sem dúvida que as bolas sempre foram o tipo de brinquedo favorito dele desde bébé!
Estes momentos vão proporcionando uma oportunidade dele estar sozinho, dele aceitar estar sozinho com prazer e sem traumas... deixando para mim a oportunidade de me re-educar a deixá-lo estar sozinho.
Isto não é fácil de perceber para quem tem filhos saudáveis. Não o era para mim quando o meu filho era saudável e me deparava com mães excessivamente cautelosas e ansiosas, quase neuróticas!
Hoje eu sou (quase) assim... Devido a circunstâncias reais e a receios fundamentados!
Mas o que importa é que pouco a pouco vamos conseguindo criar estes espaços de separação (que serão importantes no caso dele poder voltar ao infantário e eu trabalhar).
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quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Em Peregrinação


Mais 2 dias fora de casa...
Desta vez para cumprir a tradição de ir até Fátima, em peregrinação, para a Benção dos Doentes.
Como testemunho da Caridade que inevitavelmente sentimos, rezámos por alguns de vocês.
À parte o cansaço físico, revigora-nos a alma.
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domingo, 10 de agosto de 2008

Em relação ao "João Porcalhão"...

Como acontece sempre que surge um novo livro que o Principezinho goste, quer que a gente o leia até nos fartarmos (nós, porque ele parece nunca se fartar!)...

Então, para não fugir à regra, temos lido o novo livro de manhã, à tarde e à noite...

Hoje, à hora de almoço ele estava a sujar-se muito - sem querer - apenas devido aos movimentos involuntários.

E eu disse-lhe: "Vá lá filho, não sejas um João Porcalhão..."

E não é que...

Ralhou comigo e depois armou o beicinho e começou a olhar para trás (para onde estava o livro)?!?

Como quem diz "mas eu não quero ser o João Porcalhão!!!"

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sábado, 9 de agosto de 2008

Na estante do Cucu (1)


Como estreia da Estante,não podia deixar de aqui mostrar a centésima aquisição!
O João é um menino cheio de maus hábitos...
Quando vê uma guloseima no chão, quer logo comê-la.
Quando tem macacos no nariz, põe-se a tirá-los cá para fora.
Uma história muito divertida com um final (para mim) inesperado!
Autor: David Roberts
Edição: Dinalivro
Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o jardim de infância
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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Sobre Literatura


Sempre gostei muito de livros, de ler.

Actualmente ando a falhar muito às minhas saudosas leituras, por força das circunstâncias de uma vida (extremamente) dedicada ao meu filho.

Felizmente, o Principezinho também adquiriu muito cedo o gosto pelos livros.

Há pouco tempo pediram-me para preencher um questionário sobre os hábitos de leitura e escrita em família.
Ironicamente foi uma Terapeuta da Fala (a ironia aqui está, para quem não sabe, no facto do Principezinho não ser seguido por TF por falta de vaga!)

Uma das questões colocadas era a quantidade de livros que a criança tinha seus.

Eu dei-me ao trabalho de contar... 99!

Não satisfeita, hoje comprei-lhe mais um.
Juro que não foi para chegar ao número redondo, mas simplesmente porque era irresistível.

Nunca vos aconteceu estarem a ver livros na montra ou até mesmo a folheá-los numa livraria e eles murmurarem-vos "Compra-me... Compra-me...".

Pois bem. Foi o que me aconteceu outra vez hoje!

Posto isto, decidi imitar a madrinha Pikenina e iniciar uma espécie de rubrica.
Esta não se chamará "Na mesinha de cabeceira" porque na do Principezinho está apenas um livro, o único que é lido à noite (por exigência do próprio!): «Boa noite, Ursinho».

Aqui publicaremos os livros que o Principezinho gosta mais e os recém-adquiridos.

Para não ser descontextualizado esta chamar-se-á "Na estante do Cucu".

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quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Workshop sobre DISLEXIA



A Oficina Didáctica vai promover, no dia 27 de Setembro de 2008, um novo Workshop sobre o tema da Dislexia. Este evento terá lugar nas instalações do Hospital CUF Descobertas (Lisboa) e tem como principais destinatários Profissionais com intervenção na área da Educação ou da Saúde da Criança e/ou do Adolescente, Estudantes de cursos das áreas da Educação ou da Saúde, Pais e Encarregados de Educação.




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quinta-feira, 31 de julho de 2008

Gabriel Afonso

Eu estava lá quando o Gabriel nasceu.
Foi no ano que esta minha nova realidade começou. Eu estava internado na Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos e o Gabriel assim que nasceu, devido a muitas complicações (algumas de origem muito duvidosa) foi para os Cuidados Intensivos Neonatais.
"Partilhávamos" o corredor.
As nossas mães partilham o mesmo nome.
Os nossos pais já se conheciam pois cresceram na mesma localidade. Encontraram-se lá por ironia do destino.
Eu sou testemunha da ausência de esperança dos médicos perante a vida deste menino-herói...
Eu sou testemunha dos Pais-Heróis que não desistiram e não cruzaram os braços perante as dificuldades e perante tantas portas que se fecharam e continuam a fechar constantemente...
Actualmente partilhamos a mesma terapeuta ocupacional.

Nós, meninos especiais, crianças diferentes, sentimos constantemente dificuldades em superar obstáculos que deveriam ser obrigação social de um estado responsável.
Deveríamos usufruir dos apoios que merecemos e precisamos, mas na realidade são poucos os profissionais e/ou instituições que apostam e acreditam realmente em nós - principalmente quando ainda há a agravante de (além da deficiência física) se sofrer de alguma doença.
As instituições públicas não apostam o que deveriam porque dizem estar a perder tempo com determinados casos.
No entanto, quem consegue ir para alguma instituição privada consegue ver resultados que outros dizem ser impossível.

Eu sinto isso devido à minha doença respiratória e aos constantes internamentos: acabo por "perder a vez" a oportunidades de tratamentos/terapias.

O Gabriel é um menino muito especial.
Não porque tem uma deficiência profunda.
Mas porque é um lutador que já ultrapassou há muito tempo as expectativas dos médicos.
Vamos ajudar o Gabriel a dar um passinho de cada vez.
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Banho no tanque

Mais uns dias passados a molhar os pés nos repuxos da Praça, a passear muito pela vila, a banhar-me nas piscinas (e a fazer birra quando tive que sair da água!) e até a experimentar tomar banho num tanque de lavar a roupa pela primeira vez!
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quarta-feira, 23 de julho de 2008

Anjo da Luz (mais para ler)


«Hoje caminho, o céu está azul, o sol brilha esplendoroso, oiço o chilrear dos passarinhos e o silêncio... O silêncio no meu coração, Os momentos, os meus momentos felizes... Oiço o riso das crianças, cheiro a maresia que vem do mar, caminho descalça pela areia, continuo a sonhar. Sonho, que o teu limite é o sonho e que o teu caminho, tem tantos obstáculos, uns já vencidos e outros, tantos outros, por vencer...Dificil, é este nosso caminho mas, sei que embora seja feito devagar, muito devagar, sei que chegaremos ao destino deste nosso caminho que se faz caminhando...»

Este texto foi retirado de um blog que acabámos agora de conhecer e que vale a pena irem espreitando. Decidimos aqui publicá-lo pela identificação que sentimos.

http://caminhacaminhando.blogspot.com/ ou carregando directamente no link Anjo da Luz
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sexta-feira, 18 de julho de 2008

Semana de Passeios



Ah pois é... esta semana já me "fartei" de passear!
(Para compensar as semanas qua passo enfiado em casa, sem poder sair... ihihih)
Para começar fui ao Estoril. Iniciámos o passeio na Feira de Artesanato.
Logo à entrada conheci uns "Senhores-Lei"e o que eles não estavam à espera era que também eu estava vestido com a minha amostra de farda!!!
Fiquei todo vaidoso ao comparar os pormenores que tínhamos em comum nas camisas (as divisas, o distintivo, os "walkie-talkies", as algemas...). Adooorei.
Lá passeámos, conhecemos algumas bancas novas (a do Mel, dos instrumentos de corda) e enquanto a Mãe se entretinha numa banca já conhecida, a Avó Tété deu-me a conhecer as maravilhas de estar sentado no chão com pedras. Sim, gostei! Foi muito interessante... poder agarrar aquelas pedrinhas e experimentar a terra fininha.
Ainda fomos um bocadinho à praia (apesar de estar a anoitecer) e quando regressávamos vimos um mini-espectáculo de música e luzes na fonte em frente ao Casino, que eu também gostei muito.
E ontem fomos passear até ao Parque das Nações!
Que grande passeio... de comboiooooooooooooo.
Fomos conhecer o Oceanário. Passámos lá horas!
Depois demos umas voltas ali pelo jardim, descalço na relva, com a Avó Tété...
Foi um dia em cheio!
Fazem falta mais dias como este!
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Felicidade

«Parabéns!... Nota-se que o seu filho é FELIZ!»

Esta frase ecoa nos meus ouvidos há quase 12 horas... e acho que continuará a ecoar por muito mais tempo.

Foi uma senhora que mo disse hoje, no comboio, quando íamos a caminho do Parque das Nações, para ir ao Oceanário pela primeira vez.

Haverá melhor coisa para se ouvir (ainda para mais de uma pessoa desconhecida, para a qual somos anónimos)?!?
Principalmente tendo em conta toda a nossa vida de luta contra a doença, contra a incapacidade gerada pela PC, contra o preconceito, contra a (in)diferença?!?

Hoje estou feliz.
É precisamente para isto que eu rezo: para que o Principezinho seja Feliz (já que saudável não o é).

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Avaliação



Como já nos encontramos no final de ano lectivo, esta semana tivémos uma reunião com a Terapeuta Ocupacional e com a Educadora de Apoio, a qual serviu para apresentarem os relatórios de avaliação feitos ao Principezinho.

O primeiro trata-se de uma "checklist", mais conhecida por CIF - Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde - qua tanta controvérsia gera (podem, por exemplo, consultar um artigo de opinião que foi publicado na educare.pt, cujo link está no final do texto).

Se não me engano, esta "checklist" deveria ser preenchida pela equipa multidisciplinar que acompanha as crianças e contar também com o contributo dos pais, o que não me parece que aconteça de todo!

Sinceramente vou ignorá-la por enquanto, precisamente porque só foi preenchida por 2 técnicas (Terapeuta e Educadora), sem querer menosprezar o seu trabalho (que eu valorizo e agradeço!), apenas porque está muito incompleta.

Adiante...

Resumindo o relatório de avaliação final:

"É uma criança sociável quer com adultos quer com os seus pares, com quem gosta muito de estar. Geralmente bem disposta, com sentido de humor e bastante expressiva nas suas emoções.
(...) Apesar dos graves problemas a nível de expressão oral demonstra ter competências cognitivas e de compreensão verbal.
(...) À medida das suas capacidades e limitações, colabora nas brincadeiras e actividades com satisfação.
(...) Não desiste apesar das dificuldades."

Também foi referido um ligeiro atraso relativamente à idade no sentido dos conceitos.
Obviamente que esta "mãe-galinha-babada" questionou este ponto por não concordar com ele. O que querem dizer com isto é que, devido aos internamentos prolongados em meio hospitalar e até mesmo no domicílio, o Principezinho não experimenta (logo não entende) todos os conceitos... por exemplo "manhã - tarde - noite" (diferenciando apenas o dia da noite).

Com alguma relutância aceitei, até porque são muito poucos os conceitos que ele não entende, uma vez que sempre lhe explicámos tudo e confiamos muito nas suas capacidades cognitivas.

Apesar das diversas complicações que temos tido, devido à doença pulmonar, fazemos um esforço para que ele vivencie o máximo de experiências possíveis.

Nunca o tratámos como "coitadinho" nem como se ele sofresse de algum tipo de atraso mental (que, felizmente, não é o caso!), nem admitimos que outros o façam.

E também achamos que, devido ao pouco tempo que passam com ele (entre 1 hora a 1 hora e meia, semanalmente) e devido ao facto de ele ainda não comunicar de uma forma eficaz (através das técnicas de comunicação aumentativa e alternativa) não o compreendem tão bem quanto as pessoas que vivem com ele diariamente.

É muito raro explicarmos alguma coisa ao Principezinho e ele não perceber à primeira.

E ainda consideramos que ele acaba por ter outras experiências diferentes e algumas mais reais que as crianças saudáveis e sem necessidades educativas especiais (as ditas "normais").

Contudo, não "tapamos o sol com a peneira"!

O Principezinho tem, de facto, Necessidades Educativas Especiais.
Pelo atraso no desenvolvimento motor (que o torna dependente para realizar as actividades e todas as rotinas diárias), pela doença pulmonar (que exige cuidados e atenções específicas) e pelo atraso na expressão oral.

Resumindo e concluindo:
É esperto, inteligente e tem sentido de humor.

É perseverante, não desistindo da luta.

É o nosso Herói!

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quarta-feira, 25 de junho de 2008

Desabafos

Podemos ser frágeis e isso magoa!
Podemos ser pessoas que se dão de coração e isso magoa!
Podemos relacionar-nos e isso magoa!
Podemos criar laços e isso magoa!

A alternativa é virarmos fortes, solitários e egoístas, e isso TAMBÉM magoa!

Por isso, por muito que nos magoem as relações, as pessoas, as circunstâncias é sempre melhor arriscar! Em alguma altura seremos magoados, mas no entretanto aconteceram milhares de outras coisas boas!

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Campo de trigo

É deliciosamente gratificante assistir às sementes de amizade que o nosso Principezinho vai semeando... aumentando assim o seu campo de trigo.
De graúdos a miúdos - e até mesmo alguns celíacos (de alma!) - todos se deixam contagiar pelo sorriso ou pelo beicinho de vergonha que ele já utiliza tão ardilosamente, sabendo perfeitamente o que conquistará...
É este sorriso que me faz continuar...
Hoje, voltou a não querer vir logo para casa, depois do "trabalho" na UTAAC*.
Apetecia-lhe ficar por ali com o seu companheiro JP.
Viva a amizade!
E é tão bom vê-lo crescer assim.
Já que não é saudável de corpo, que o seja de alma e coração.
Que nunca deixe de ter tamanha capacidade de amar e de ver sempre o lado bom das coisas.
Para que continue a semear o seu Campo de Trigo...
*UTAAC - Unidade de Técnicas Aumentativas e Alternativas de Comunicação

O essencial é invisível para os olhos

«(...)
Foi então que apareceu a raposa.
- Olá, bom dia! - disse a raposa.
- Olá, bom dia! - respondeu delicadamente o principezinho que se voltou mas não viu ninguém.
- Estou aqui - disse a voz - debaixo da macieira.
- Quem és tu? - perguntou o principezinho. - És bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
- Anda brincar comigo - pediu-lhe o principezinho. - Estou triste...
- Não posso ir brincar contigo - disse a raposa. - Não estou presa...
- AH! Então, desculpa! - disse o principezinho.
Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:
- O que é que "estar preso" quer dizer?
- Vê-se logo que não és de cá - disse a raposa. - De que é que tu andas à procura?
- Ando à procura dos homens - disse o principezinho. - O que é que "estar preso" quer dizer?
- Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar - disse a raposa. - É uma grande maçada! E também fazem criação de galinhas! Aliás, na minha opinião, é a única coisa interessante que eles têm. Andas à procura de galinhas?
- Não - disse o principezinho. Ando à procura de amigos. O que é que "estar preso" quer dizer?
- É a única coisa que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. - Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.
- Laços?
- Sim, laços - disse a raposa. - Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passo a ser única no mundo...
- Parece-me que estou a começar a perceber - disse o principezinho. - Sabes, há uma certa flor...tenho a impressão que estou presa a ela...
- É bem possivel - disse a raposa. - Vê-se cada coisa cá na Terra...
- OH! Mas não é da Terra! - disse o principezinho.
A raposa pareceu ficar muito intrigada.
- Então, é noutro planeta?
- É.
- E nesse tal planeta há caçadores?
- Não.
- Começo a achar-lhe alguma graça...E galinhas?
- Não.
- Não há bela sem senão...- disse a raposa.
Mas a raposa voltou a insistir na sua ideia:
- Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu, caço galinhas e os homens, caçam-me a mim. As galinhas são todas iguais umas às outras e os homens são todos iguais uns aos outros. Por isso, às vezes, aborreço-me um bocado. Mas, se tu me prenderes a ti, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Estás a ver, ali adiante, aqueles campos
de trigo? Eu não como pão e, por isso, o trigo não me serve de nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar de nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando eu estiver presa a ti, vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do barulho do vento a bater no trigo...
A raposa calou-se e ficou a olhar durante muito tempo para o principezinho.
- Por favor...Prende-me a ti! - acabou finalmente por dizer.
- Eu bem gostava - respondeu o principezinho - mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e uma data de coisas para conhecer...
- Só conhecemos as coisas que prendemos a nós - disse a raposa. - Os homens, agora, já não têm tempo para conhecer nada. Compram as coisas já feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não têm amigos. Se queres um amigo, prende-me a ti!
- E o que é que é preciso fazer? - perguntou o principezinho.
- É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim, em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não me dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos. Mas todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto...
O principezinho voltou no dia seguinte.
- Era melhor teres vindo à mesma hora - disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já hei-de estar toda agitada e inquieta: é o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito...São precisos rituais.
- O que é um ritual? - perguntou o principezinho.
- Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu - respondeu a raposa. - É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias e uma hora, diferente das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, têm um ritual, à quinta-feira, vão ao baile com as raparigas da aldeia. Assim, a quinta-feira é um dia maravilhoso. Eu posso ir passear para as vinhas. Se os caçadores fossem ao baile num dia qualquer, os dias eram todos iguais uns aos outros e eu nunca tinha férias.
Foi assim que o principezinho prendeu a raposa. E quando chegou a hora da despedida:
- Ai! - exclamou a raposa - ai que me vou pôr a chorar...
- A culpa é tua - disse o principezinho.- Eu bem não queria que te acontecesse mal nenhum, mas tu quiseste que eu te prendesse a mim...
- Pois quis - disse a raposa.
- Mas agora vais-te pôr a chorar! - disse o principezinho.
- Pois vou - disse a raposa.
- Então não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! - disse a raposa. - Por causa da cor do trigo...
Depois acrescentou:
- Anda, vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.
O principezinho lá foi ver as rosas outra vez.
- Vocês não são nada parecidas com a minha rosa! Vocês ainda não são nada - disse-lhes ele. - Não há ninguém preso a vocês e vocês não estão presas a ninguém. Vocês são como a minha raposa era. Era uma raposa perfeitamente igual a outras cem mil raposas. Mas eu tornei-a minha amiga e, agora, ela é única no mundo.
E as rosas ficaram bastante incomodadas.
- Vocês são bonitas, mas vazias - ainda lhes disse o principezinho. - Não se pode morrer por vocês. Claro que, para um transeunte qualquer, a minha rosa é perfeitamente igual a vocês. Mas, sozinha, vale mais do que vocês todas juntas, porque foi a que eu reguei. Porque foi a ela que eu pus debaixo de uma redoma. Porque foi ela que eu abriguei com o biombo... Porque foi a ela que eu matei as lagartas (menos duas ou três, por causa das borboletas). Porque foi a ela que eu vi queixar-se, gabar-se e até, às vezes, calar-se. Porque ela é a minha rosa.
E então voltou para o pé da raposa e disse:
- Adeus...
- Adeus - disse a raposa. Vou-te contar o tal segredo. É muito simples:
só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
- O essencial é invisível para os olhos - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade - disse a raposa. - Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que está preso a ti. Tu és responsável pela tua rosa...
- Sou responsável pela minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
(...)»

Antoine de Saint-Exúpery (O Principezinho)